A ciência do medo: Pesquisas da USP explicam como traumas moldam o cérebro

Cientistas mapearam o ‘interruptor’ cerebral responsável por transformar reações instintivas em ansiedade generalizada e revelam como o processo de extinção de memórias pode ser a chave para superar traumas.

por Laina Moraes

Descobertas científicas recentes realizadas pela USP, mapearam o medo como um mecanismo de sobrevivência complexo, identificando circuitos neurais específicos e um “interruptor” cerebral (no núcleo dorsal da rafe) que alterna entre medo agudo e ansiedade generalizada. Estudos da USP e outras instituições mostram que memórias de medo são armazenadas no cérebro e podem ser inibidas

As pesquisas indicam que o estresse agudo pode alterar a neuroquímica do núcleo dorsal da rafe, trocando o neurotransmissor glutamato pelo GABA. Esse mecanismo funciona como um “interruptor” para o medo generalizado, mas pode ser bloqueado pelo uso de fluoxetina logo após o evento estressor. Biologicamente, o medo prepara o organismo para reações de luta ou fuga por meio da liberação de substâncias como adrenalina, cortisol e dopamina.

Em entrevista a psicóloga Marcia Amaral nos explicou o que é o medo em sua essência: “O medo ele é uma emoção inata do ser humano. O que que isso quer dizer? Que a gente tem o medo como uma premissa da nossa natureza. Isso vem dos nossos ancestrais, na verdade. A ação dele é na verdade de uma prevenção, de proteger o ser humano. A gente precisa dessa sensação até para que a gente tome medidas protetivas.”

As memórias de medo permanecem armazenadas no cérebro e podem ser recuperadas posteriormente. Estudos da USP demonstram que existem vias neurais distintas para o medo inato (reação instintiva a perigos imediatos) e o medo aprendido (associado a experiências traumáticas anteriores). A diferenciação entre esses circuitos cerebrais é um fator fundamental para o estudo clínico de distúrbios de ansiedade e da síndrome do pânico.

A profissional ainda explica que em certo momento o medo caminhou pra a ansiedade e para o transtorno do pânico: “Quando a gente passa por uma situação de medo, a gente tem tende a ter algumas reações. Ou a gente se esquiva, certo? Ou a gente tem uma sensação de fugir, de fuga ou a gente luta.  Então, a reação também que é espontânea no ser humano. Conforme as demandas da vida vão acontecendo, e hoje a gente fala tanto de, por exemplo, de transtorno de ansiedade, a gente vai muito para esses olhares, O medo ele foi indo para esse lugar. Até pela maneira como o raciocínio do ser humano, a elaboração que temos a respeito das coisas, o medo pode ir para esse lugar de transtorno, de pânico.”

A superação de traumas ocorre através da extinção do medo, processo que consiste na criação de novas memórias que competem com a lembrança original. Essa função é regulada por uma área específica do córtex pré-frontal e por mecanismos epigenéticos. Diferente do esquecimento, a extinção é uma regulação ativa que permite ao sistema nervoso sobrepor novas associações de segurança à memória de perigo previamente estabelecida.

A Central de Notícias da Rádio Onda é uma iniciativa do Projeto “Grafite”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.

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