A Pandemia e a Música: o som de uma época

 

Como a crise sanitária transformou a criação, o mercado e o consumo musical no Brasil

por Luiza Borgli

 

Declarada em março de 2020 pela OMS, a pandemia de COVID-19 mudou radicalmente a rotina social, econômica e cultural no mundo. O cotidiano, antes marcado pela circulação constante, encontros e consumo cultural presencial, migrou para dentro de casa.A vida tornou-se digital, mediada por telas, plataformas de streaming, redes sociais e lives. Com isolamento prolongado, a forma de consumir arte e música passou por transformações profundas: a audiência passou a tentar compensar a falta de eventos presenciais com consumo online, mas também sofreu impactos emocionais e econômicos que alteraram hábitos.

Porém, a quarentena não impactou apenas o nosso jeito de produzir, mas também o conteúdo que era feito. A arte, por exemplo, passou a desempenhar papéis múltiplos. Em um período marcado por medo, luto e incerteza, a música tornou-se terapia emocional: companhia diária, ferramenta de regulação emocional e uma forma de aliviar ansiedade e solidão. Não à toa, milhões de playlists relacionadas a “calma”, “relax” e “concentração” cresceram durante a pandemia.

Contudo, a música não deixou de ser uma forma dos artístas se expressarem e lidarem com momentos e períodos difíceis da vida. Quem fala mais sobre isso é a Isa Salles, vocalista da TEIMA, que contou como a produção do primeiro EP da banda, feito na pandemia, a ajudou a lidar com momentos difíceis de sua vida:

“ Eu tava vindo de uma fase pesada e fui entrando num mood mais leve. ‘Tão Tarde’, que foi a última, é uma música densa, mas fala sobre superação, sobre lidar de forma mais leve com os problemas (…) A maternidade me trouxe para o chão e me fez olhar para as coisas com mais calma. Os problemas chegam, mas a gente não pode deixar que eles acabem com a nossa vida antes da hora.”

 

Já o produtor musical ALDS, que também produziu seu primeiro álbum “The Beginning of All This” na pandemia, e comentou como foi diferente produzir música neste período e como isso impactou no seu disco:

“A vida inteira eu compus com outros artistas. Mesmo sendo um disco solo, eu teria contado com mais colaborações se não fosse a pandemia. Pensei todos os instrumentos sozinho, até os que eu não tocava. É um álbum com muitos arranjos de cordas, que um dia pretendo tocar com orquestra. Então foi um desafio, mas também uma realização.”

 

Contudo, para esses artístas, a pandemia não foi um desincentivo para fazer música, foi um estímulo, tanto que seus primeiros projetos foram produzidos neste período. Edu, baixista da banda TEIMA, contou como se desafio ainda mais em seu processo criativo durante o lockdown:

“O processo começou ainda durante a pandemia, muito por causa da clausura e do recolhimento que a gente estava vivendo. Como músicos, não fazíamos ideia do que viria pela frente. Eu conversava muito com o Sandro sobre o futuro, ou se haveria futuro, e mesmo assim, decidi me colocar em movimento. Pensei: já que não tenho shows, não estou produzindo e não sei o que vai acontecer, vou compor. Todos os dias, reservava algumas horas da tarde para sentar e criar alguma coisa, nem que fosse ruim, mas criar. Isso nos permitiu montar um acervo de ideias. Quando conseguimos nos encontrar de novo, ainda aos trancos e barrancos, saindo da fase das lives e voltando aos poucos para os shows presenciais, ainda de máscara, começamos a retomar o projeto. O Sandro já estava envolvido no trabalho solo, a Isa ocupada com o filho e grávida, com outros projetos em paralelo; o Mike também tinha seu projeto, o Jovelina. O Sandro, além disso, morava em Gravataí. Então, procurei novos integrantes e, aos poucos, eles foram me ajudando a montar a banda e encontrar gente para tocar com a gente.”

Por mais que a pandemia tenha mudado a música, essa forma de arte não mudou só por causa da pandemia, a vocalista da TEIMA, Isa Salles, contou que por mais que os integrantes da banda não se encontrassem a forma de fazer música não mudou tanto em técnica como em essência:

“A pandemia veio num momento em que muita gente já tinha acesso a um home studio, então conseguimos continuar criando à distância. Lembro que, no começo, o Du me mandou várias bases sem nem saber ao certo o que faria com elas, e eu fui gravando voz no meu estúdio — acho que eu já estava grávida nessa época. A ideia inicial era que outra pessoa cantasse, mas seguimos experimentando.O Mike gravou as baterias da casa dele, porque mora em outra cidade da região metropolitana de São Paulo, e tudo aconteceu de forma remota, como a maioria dos trabalhos na pandemia. Foi a maneira que encontramos de não parar com a música.Quando o Sandrinho entrou, ele já veio pessoalmente gravar guitarras. Esses foram nossos primeiros ‘song camps’. Eu acabava indo mais para o estúdio do Edu, porque ele já tinha muita coisa pronta e a gente discutia o que precisava regravar ou ajustar. Era mais fácil, já que morávamos perto e passamos praticamente a pandemia inteira juntos, o Edu morava sozinho, então eu passava as noites lá. A convivência diária facilitou muito o processo de gravação, mesmo com toda estranheza daquela fase.”

Já o ALD´S, comentou que por mais que seu trabalho venha de uma fração da pandemia, ele é um conjunto de memórias, estilo e técnica que tem como base uma vida inteira:

“Tem uma coisa curiosa sobre esse álbum. Eu realmente dei vida ao projeto durante a pandemia, mas, recentemente, minha mãe estava ouvindo e comentou: ‘Tem algo nessa música que não parece ser de agora, nem da pandemia’. E ela tinha razão. Quando eu morava com ela, adolescente, ela tinha o hábito de abrir a porta do meu quarto só um pouquinho para ouvir o que eu estava tocando, sempre que gostava do som.Por isso, o álbum carrega fragmentos daquela época. Tenho 37 anos hoje e saí de casa aos 19, então muita coisa ali vem de um processo longo. Eu nunca fui aquele “músico de revistinha” ou de fogueira  nunca fui de tirar músicas prontas. Eu sempre inventei minhas coisas, insistindo até achar um caminho. Isso tem seus lados bons e ruins, mas fez parte da minha formação.”

Por mais que a forma de produzir música não tenha mudado, o consumo mudou e aumentou drásticamente.  A pesquisa Hábitos Culturais, desenvolvida pelo Itaú Cultural e pelo Datafolha, o consumo de música online no Brasil era muito alto durante a pandemia, com 79% a 84% dos entrevistados consumindo música online nesse período. Além disso,  De acordo com relatórios de mercado do setor fonográfico brasileiro, como o Pro-Música Brasil, o crescimento nos usuários de plataformas de streaming no Brasil apresentou expansão dos serviços de áudio e vídeo musical, crescimento este que é contínuo em um período pós-pandemia conforme dados de 2023 e 2024.

De acordo com o Global Music Report da IFPI, o mercado global de música gravada manteve seu crescimento em 2024, avançando 4,8% e alcançando cerca de US$ 29,6 bilhões. O principal motor desse resultado foi o streaming por assinatura, que também aumentou seu número de usuários, chegando a 752 milhões de assinantes. Isso indica que, no panorama global, tanto o consumo quanto a receita do setor seguiram em alta após a pandemia, com o streaming se mantendo dominante, ainda que o ritmo de expansão tenha desacelerado em comparação aos anos imediatamente posteriores ao período pandêmico.

A pandemia expôs fragilidades, acelerou mudanças e transformou formas de consumo, mas também lembrou algo essencial: a música continua sendo um espaço de cura, memória e pertencimento. Vale seguir consumindo, apoiando e buscando sons que dialoguem com você, porque, em qualquer fase da vida, a música sempre encontra um jeito de acompanhar quem precisa ouvir.

E aí? Já deu play na sua música favorita hoje?

A Central de Notícias da Rádio Onda é uma iniciativa do Projeto “Grafite”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.

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